Alexsandro Rosa Soares
em
17/02/2007
Clara
passeava no jardim com as crianças.
O céu era verde sobre o gramado,
A água era dourada sob as pontes,
Outros elementos eram azuis, róseos,
alaranjados,
O guarda-civil sorria, passavam bicicletas,
A menina pisou na relva para pegar um pássaro,
O mundo inteiro, a Alemanha, a China, tudo era
Tranqüilo em redor de Clara.
As crianças
olhavam para o céu: não era proibido.
A boca, o nariz, os olhos estavam abertos. Não
havia perigo.
Os perigos que Clara temia eram a gripe, o calor;
os insetos.
Clara tinha medo de perder o bonde das 11 horas,
Esperava cartas que custavam a chegar,
Nem sempre podia usar vestido novo.
Mas passeava no jardim, pela manhã!!!
Havia jardins,
havia manhãs naquele tempo!!!
(ANDRADE, C. D., apud ALVES,J.F. p. 59)
Hoje acordei
com o meu mau humor matinal de sempre, tomei
meu café, liguei a TV e me deparei com
um noticiário, que abordava a questão
da violência, diante do fatídico
caso de abominação da vida, do
garoto João Helio Fernandes Vieites,
que foi arrastado por bandidos até a
morte, no estado do Rio de Janeiro.
Comecei a pensar
em porque estamos nessa vida, tendo que passar
por esse tipo de situação? Porque
acordar mal humorado tendo uma vida normal,
com poucos riscos, dentro da minha casa, com
meus familiares, enquanto há pessoas
do lado de fora sofrendo tanto, como os pais
desse garoto. Foi emocionante ouvir da mãe
de que ela só queria o filho dela, o
resto não importava. Que levassem o carro,
que levassem tudo, mas que deixassem o seu cordão
umbilical mais perfeito que Deus pôde
lhe dar, que era o seu filho.
Tento imaginar
o que se passa na mente e no coração
de um indivíduo que tem prazer e coragem
de realizar tal tragédia, mas não
consigo atingir esse patamar de pensamento.
Não consigo imaginar tanta frieza num
ato como esse.
Sabe, sofremos
tanto por pequenas coisas, sobrevivemos a cada
dia, trabalhando, lutando, batalhando para conseguir
uma vida mais harmoniosa, mais confortável,
e num belo dia um ser humano, se é que
podemos chamá-los assim, se aproxima,
nos aponta uma arma e arranca-nos o que demoramos
tanto para conquistar. E mais que isso, nos
arranca a coisa mais importante que Deus pode
nos oferecer que é o outro, o filho.
Será que é difícil se colocar
no lugar do outro? Será que não
existe dentro desses indivíduos uma pontinha
de sentimento de que aquilo que ele faz ou fez
com o seu próximo poderia estar acontecendo
com ele ou com algum parente próximo
dele?
Vivemos a tanto
tempo escravizados por uma elite, aceitando
os seus desejos e anseios, será que agora
teremos que viver mais algum tempo escravizados
por nós mesmos? Até quando?
Em pensar que
fomos criados à imagem e semelhança
de um SER divino, nos dando a oportunidade de
aproveitar tudo que existe neste planeta. Deus
nos criou à sua imagem e nós,
o que fizemos? Deturpamos toda magia e divindade
desse ato de amor.
Fico intrigado
repensando os motivos que levariam a uma pessoa
agir dessa forma, sem pensar no sofrimento do
outro, sem pensar na vida do outro que prossegue,
sem pensar na sua própria vida. E tudo
isso por quê? Para quê? Se todos
num belo dia partiremos.
Poderíamos
arranjar todas as desculpas possíveis
e impossíveis para esse ato de crueldade.
Dificuldades financeiras, crise existencial
e familiar, necessidade de TER, mais do que
SER, o sentimento de poder sobre a vida do outro,
mas tudo isso é injustificável
diante de todo sofrimento causado por tal atitude.
Não existe na face da terra algo que
justifique a necessidade de se agir dessa forma.
E ainda temos
que agüentar os nossos governantes preocupados
em decidir o valor do seu próximo salário.
Assistir uns se debatendo com os outros por
uma ideologia política que só
beneficiará a eles próprios, e
que não tem nenhum vínculo com
o seu patrão que é o povo. Governantes
preocupados com a decoração de
seu gabinete, com os rumos de sua carreira política,
com a sua segurança, enquanto o povo
que paga seus impostos para sustentar esse país
sofre diariamente com a violência e a
sobrevivência. Porque será que
apesar de tantos impostos, de tanta riqueza,
num país tão diversificado culturalmente,
economicamente e politicamente ainda tenhamos
o maior índice de pessoas vivendo abaixo
da linha de pobreza?
Esses casos
proporcionam uma indagação sobre
a quem pode interessar esses acontecimentos
e a dificuldade de se punir os grandes mentores
dessas crueldades, sou enfático em afirmar
que isso só pode interessar a quem nunca
teve seu filho arrastado por num carro, em alta
velocidade, e enquanto pai, ver aquela cena
sem poder fazer nada. Interessa para todos que
vivem na sua redoma de segurança e não
precisam levantar todos os dias às cinco
horas da manhã para tomar um ônibus
e correr os riscos que todos sabemos bem quais
são.
O que não
podemos permitir é que esses acontecimentos
caiam na banalização, ou seja,
na rotina, cotidiano. Um ato que causa um sentimento
de revolta momentâneo e depois se esvai
esquecido por todos.
Precisamos
sim de mobilizar-nos porque somos maiores. É
inadmissível que tantos seres humanos
fiquem reféns de um ou dois bandidos,
e que esses possam dirigir as nossas vidas de
tal forma que fiquemos aprisionados em nossos
lares sem termos como aproveitar a vida que
o nosso semelhante nos ofereceu. Precisamos
agir, precisamos de iniciativa, de sair da nossa
vidinha e lutar pelo que é nosso tanto
quanto é deles, a LIBERDADE.
Que Deus nos abençoe!
REFERÊNCIAS
ALVES, Júlia Falivene Alves, Cidades
maravilhosas, cheias de violências mil.
apud Violência em debate, ed. Moderna,
p. 59, 1994.
Alexsandro
Rosa Soares
nasceu em Natividade interior do estado do Rio
de Janeiro, é Graduando em Letras, pelas
Faculdades Integradas Padre Humberto, Graduado
em Licenciatura Plena em Ensino Fundamental
de 1ª à 4ª Séries, pelo
Instituto Superior de Educação
de Itaperuna, autor de diversos artigos relativos
à Educação, atualmente
é Sub-secretário das Faculdades
Integradas Padre Humberto em Itaperuna interior
do Rio de Janeiro.