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Adelson
Correia da Costa*
em 17 maio de 2008
Era
um dia comum, destes que todos esquecem com a
passar do tempo. Um dia calmo em Juazeiro, uma
cidade de porte médio do sertão
baiano. Juazeiro com seus casarios e suas ruas
calçadas com pedras reserva para si uma
bucólica leveza de uma localidade interiorana
à beira do Rio São Francisco, que
aos poucos está perdendo em favor do desenvolvimento
urbano. É uma cidade bela de gente alegre
que encanta os visitantes. É a minha cidade.
Nela, dia após dia, eu derramo meu suor,
trabalhando como uma formiga operária ao
sair do formigueiro. Para mim, esta cidade é
um caminho largo e desafiador, por onde ando sem
parar: Eu trabalho nos Correios locais e sou carteiro,
me chamo Gabriel.
Naquele dia quente, a rotina citadina se mostrava
no vai-e-vem do povo: Gente indo e vindo para
algum lugar. Acontecia, como sempre, a coreografia
desordenada de corpos movendo-se para todos os
lados. Pessoas que se viam atadas entre si mesmas
por olhares compartilhados. Cada qual com o seu
querer e cada um com seu dever. Fico imaginando
o que impele esta gente toda a seguir adiante.
Cada um deve ter seus momentos de felicidade e
seus problemas aguardando solução.
O meu trabalho me compele a prestar atenção
nestas pessoas que se despem à minha frente.
Eu vou aonde quer que haja um destinatário.
Sou feliz no que faço há anos. Uma
inquietação me perseguia diariamente:
Qual a finalidade do meu trabalho? O que significava
essa labuta incessante fosse sol, fosse chuva?
Qual a razão de tantas cartas? A quem as
entrego? Sem resposta para minhas inquietações,
eu cumpria, naquele dia, minha jornada, transportando
em minha bolsa notícias frescas e esperadas.
Entrego datas e fatos carimbados pelas mãos
dos homens. Caminho pela cidade que, a cada dia,
se torna mais familiar. A cada passo, eu acrescento
mais terra ao meu próprio quintal, quer
eu vá por rua, avenida, beco ou invasão.
- Carteeeeeeeeeeeiro!
Era a Dona Getrudes, chamando-me mais uma vez.
- Tem carta para mim hoje?
- Não Dona Getrudes, hoje não!
A Dona Getrudes tem um filho ingrato. Ele foi
há tempos para São Paulo, mas parece
que esqueceu o passado, incluindo nisto a sua
própria mãe. Toda semana ela lhe
escreve uma carta, mas não recebe resposta
alguma. Eu percebo que Dona Getrudes não
gosta de mim talvez por que, para ela, eu represente
a falta de notícias do seu filho querido
ou por ser minha passagem a senha das suas lágrimas.
- Como não? Mandei carta para meu filho
há uma semana!
- Vai ver que ele ainda não respondeu.
- Você está vendo isso direito, Gabriel?
Você é muito lerdo com essas cartas.
Vou reclamar para teu chefe.
- Tenha calma, Dona Getrudes, talvez ele ainda
não tenha recebido a sua carta. Escreva-lhe
outra.
- Está certo. Amanhã entrego aos
correios.
Dona Getrudes é uma destas pessoas com
as quais tenho contato no dia-a-dia. Fico imaginando
o que eu possa fazer para ajudá-la a ter
notícias do seu filho. Não sei por
qual razão, mas acredito que lhe devo isso.
Decidi que discutiria o assunto com meus colegas
de trabalho mais experientes, mais tarde. A alegria
dela ao receber notícias dele, de alguma
forma, também será a minha. Mas
não tinha tempo de pensar nisto naquele
momento, um dever me compelia a executar um roteiro
certo cumprido a passos pré-determinados.
Eu sou o caminho distribuidor e noticiário
provedor.
Rua da orla do Rio São Francisco. Com o
sol a pino, eu grito ao portão:
- Carteiro! - Nada ouço... Tento mais uma
vez:
- Carteiro! - Nada, nenhum som compreensível,
apenas latidos. Sigo em frente.
Eu seguia caminhando a entregar cartas, medindo
o sol, consumindo as ruas, observando rostos.
Naquele dia, na rua das palmeiras número
15, saboreei o breve sorriso de uma donzela, que,
ao antever a provável boa notícia
na carta que se desprendia das minhas para as
suas mãos nubentes, acenou-me ao correr
para um canto solitário dentro de sua residência.
- Muito obrigada, seu Gabriel!
Ela é uma boa jovem, que eu conheço
desde menina quando a via brincar naquelas alamedas.
Seu nome é Maria, como tantas por aí.
Ela vivencia um amor atribulado, como toda Maria
um dia há de ter. Mas adiante, vi um vil
luto ser brotado de uma perda anunciada. Lembrei-me
da anterior alegria da Maria e percebi o amor
e a dor aproximados em duas situações
de lágrimas heterogêneas de tristeza
ou alegria.
Eu, às vezes, caminhava distraído,
como se estivesse em um quintal. Atingira o ápice
da distribuição das cartas, quando
o fardo já se transferira em grande parte.
Estava na fase de contemplação do
dito e feito há tantas horas. Eu já
estava pensando no amanhã. De repente,
um veículo desgovernado, de placa e identificação
desconhecidas por mim, em alta velocidade, na
tardia freada, atropelou-me e me arremessou, inexoravelmente,
a uma dimensão desconhecida. Reconheci-me
morto e ciente da derradeira jornada da minha
labuta diária, sem percepção
de som, tato ou odor. Imerso e impotente na minha
exclusão, ainda tinha noção
de quem era e do que fora. Estava ali com minhas
dores, minha farda, minha ignorância e minha
impotência. A bolsa com as correspondências
ainda estava em meus ombros. Eu girava e pairava
na imensidão do nada, numa agonia sem fim,
até um vento borrifar.
Ao passo em que ia se esvaindo o meu torpor, a
escuridão se dissipava. De súbito,
em meio à luz do dia, pude ver o cio verde
espraiado por meu roçado, os juazeiros
frondosos, os mandacarus floridos, as palmas,
as formigas e os tatus. Vi arribaçãs
voando e a lida da minha gente. Vi sertanejos
em montaria versando a galope ao lado do gado
magro. Então, brilhante e altivo, vestindo
um impecável gibão de couro, montado
no maior alazão, aproximou-se de mim um
vaqueiro alto e negro da minha cor.
- Seja bem vindo Gabriel, estás diante
do teu Senhor! Ajoelha-te diante do teu Pai. Vislumbra
teu lorde e medita meu Anjo Gabriel. Nesta tua
nova existência há comunhão
de certezas. Não haverá mais dúvidas
em teu ser. Mostrar-te-ei que é chegado
o teu amparo.
Com o peso de tanta dor, ajoelhei-me e rezei diante
do pai-nosso, envolto em tanta luz!
- Pai eterno, e os meus, os que precisam de mim?
Valei-os, por favor.
- Aquieta-te meu bom moço, pois, por certo,
eu os valerei.
- Oh, todo-poderoso! Onde estou?
- Tu estás no Paraíso, idêntico
ao teu Sertão querido para que teu Céu
possa ser.
- Senhor, e minhas cartas, a quem eu devo entregar?
- Tuas cartas, laborioso Gabriel, são os
sentimentos de alegria e tristeza dos meus filhos.
Alivia-te do teu fardo e entrega-me essa tua bolsa,
pois todas as mensagens juntas formam aquela que
é endereçada ao teu senhor.
- Meu bom Deus, razão de minha fé,
eu rogo em meu favor! Eu tenho que voltar, pelo
pão, pelo leite e pelo amor!
- Não sabes que cada jornada pela existência
é um fluxo numa linha particular do tempo
muito difícil de ser alterado? O que tu
me pedes é um imenso labor. É singela
a tua ignorância e é sincera a tua
fé. Silencia carteiro Gabriel, pois teu
trajeto eu irei rever!
Ao afastar-se de mim, o elegante vaqueiro apeou
da montaria, tirou o chapéu e olhou à
sua volta, como se conferisse uma obra por fazer.
Encostou o chapéu no peito e ergueu a mão
direita na direção do infinito.
Eu caí de joelhos inerte e absorto pela
segunda vez naquele dia. O elegante sertanejo
impôs um silêncio de sepulcro que
alcançou o fim do mundo e começou
a aboiar. Aquela voz melodiosa atravessou o firmamento.
Outro tom não existia, igual som jamais
houvera. Um frio de agulha penetrou minhas veias.
Eu não ousei ouvir a cantoria. O chão
ruiu sob meus pés. No embalo do aboio,
terra, plantas, animais e ar se desmancharam como
pó. O vento voltou a borrifar, quando o
escuro mais negro que há explodiu na voz
do cantador.
Eu senti meu incômodo suor, senti odor e
o toque de um corpo gordo deitado ao meu lado.
Ouvi o canto do galo garnisé e, por fim,
a voz da Niná, minha mulher:
- Acorda Gabriel, estás a sonhar!
"No
sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado da
parte de Deus para uma cidade da Galiléia,
chamada Nazaré, a uma virgem, prometida
em casamento a um homem, chamado José,
da casa de Davi. O nome da virgem era Maria. Entrando
onde ela estava o anjo lhe disse: "Alegra-te,
cheia de graça, o Senhor está contigo!"
EVANGELHO DE LUCAS 1 26/28
"São
Gabriel, arcanjo que traz as boas notícias
do céu, feliz o coração da
Virgem Maria que pôde sentir a vossa Mensagem!"
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