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Ricardo
Corrêa Peixoto*
em 17 maio de 2008
"O intelecto
humano não é luz pura, pois recebe
influência da vontade e dos afetos, donde
se poder gerar a ciência que se quer. Pois
o homem se inclina a ter por verdade o que prefere.
Em vista disso, rejeita as dificuldades, levado
pela impaciência da investigação;
a sobriedade, porque sofreria a esperança;
os princípios supremos da natureza, em
favor da superstição; a luz da experiência,
em favor da arrogância e do orgulho, evitando
parecer se ocupar de coisas vis e efêmeras;
paradoxos, por respeito à opinião
do vulgo. Enfim, inúmeras são as
fórmulas pelas quais o sentimento, quase
sempre imperceptivelmente, se insinua e afeta
o intelecto." (Francis Bacon)[1]
Ao nos depararmos com as superposições
ou justaposições de diferentes tempos
históricos e suas mentalidades adjacentes,
por vezes antinômicas pela busca de tornar
cognoscíveis os inúmeros contra-sensos.
Partindo da história das mentalidades ou
ainda de uma produção historiográfica,
cujo cerne está no inorgânico, onde
o passado é negado aos olhos mas é
corroborado pelos corações e mentes,
a partir daí empreende-se uma espécie
de arqueologia da mente humana, que se apresenta
como uma dimensão imensurável e,
por conseguinte, engendra o perigo iminente de
anticientificidade, o que pode condenar ou não
essa historiografia que se baseia em fontes psíquicas,
imateriais e, porque não, metafísicas.
A partir dessas premissas, nos deparamos ironicamente
com o homem em toda a sua excentricidade, inquietação,
ávido por encontrar sentido para sua vida
e/ou existência aparentemente sem propósito,
apegando-se as suas verdades efêmeras, concepções
paradigmáticas que ousam por um certo tempo
explicar o mundo, teocentrismo, racionalismo,
holismo, religião, ciência, enfim,
todas essas mudanças bem mais parece uma
corrida desesperada por algo convincente. Ensandecidos
dentro de mundo repleto de regras, exigências,
símbolos, arquétipos, ou seja, construtos
artificializados e mutáveis, mas que respondem
pelos substratos que alicerçam nossa frágil
sociedade e todo seu conglomerado de instituições,
que numa batalha inexcedível busca exorcizar
seus demônios que a história mostra
sem nenhum sarcasmo que eles atendem pelo nome
de homo sapiens.
Por isso mesmo, somos levados a estabelecer uma
série de relações e preencher
inúmeros requisitos para estar em consonância
com os ditames criados por nós mesmos,
a fim de ser aceito, de estar apto, trazendo assim
uma sustentabilidade e exeqüibilidade para
o sistema. Como diria Arthur Schopenhauer, "a
nossa vida são como imagens em um mosaico
tosco". Assistimos as leis serem mudadas,
as paisagens, a arquitetura, via de regra, achamos
grotesco o antigo, os cortes de cabelo, as roupas,
os sapatos, estilos musicais, os padrões
estéticos, esses últimos que de
maneira precípua vem gerando toda sorte
de doenças psicossomáticas, como
bulimia, anorexia e toda sorte de crises existenciais
que grosso modo, não passam de esquizofrenias
sociais compelidas pela modernidade e seus rígidos
padrões de beleza, erigindo por assim dizer,
uma segregação e/ou racismo estético.
Por outro lado, outras coisas permanecem perenes,
quase intactas em nossas idiossincrasias e, por
conseguinte, julgamentos, nossos limites do aceitável,
entretanto, ainda achamos inconcebíveis
inúmeros delitos e os punimos, seja pelo
encarceramento e/ou alienação, alijamento
do convívio social ou mesmo pela pena de
morte, que seria a recusa definitiva da sociedade
ao direito a vida do infrator, por entender que
não há retratação,
enfim, atos como assassinato, estupro, seqüestro,
pedofilia, tráfico de drogas, são
dogmaticamente inaceitáveis, entretanto,
outros delitos começam a ser descriminalizados,
abrandados a partir de novas racionalizações
e pressupostos, que mui lentamente vão
sendo maturados na idiossincrasia social, como
é o caso do usuário de drogas que
no Brasil já recebe punições
mais tênues, por hoje entendermos que se
trata muito mais de uma patologia do que de uma
simples sublevação da lei, já
em outros países como a Holanda o uso de
drogas é permitido e regulamentado, o que
evidencia a inexistência de homogeneidade
moral no mundo, denunciando nossa incapacidade
de entender o homem que metamorfoseia-se no tempo
e no espaço.
Parece
eternamente improvável que a humanidade
de um modo geral, algum dia seja capaz de passar
sem paraísos artificiais. A maioria dos
homens e mulheres leva uma vida tão sofredora
em seus pontos baixos e tão monótona
em suas eminências, tão pobre e limitada,
que os desejos de fuga, os anseios para superar-se,
ainda por uns breves momentos, estão e
têm estado entre os principais apetites
da alma.[2]
Um
exemplo clássico de um braço do
passado no presente são os tabus, que permanecem
em silêncio por muito tempo até conjugarmos
a devida capacidade de vencer as formas espectrais
que nos constrangem.
"Quebrar
tabus" exige ousadia para dizer o não
dito; da mesma forma como requer prudência
e coragem para mostrar a verdade a o olho desarmado.
E tudo que é ousado, por si só,
está fora de lugar, pois implica desacato
e atrevimento. Atrevimento para expor aquilo que,
por uma questão moral, jurídica
ou política, não deveria ser dito.
Daí a quebra de tabus revelar silêncios
propositais da História que, por si só,
também são história...[3]
Se
nos propomos a decifrar ao menos fragmentos de
nossa história mental, trazendo a lume
memórias rarefeitas, esquecidas nos corações
e mentes não só de grandes personalidades
que dispõe dos meios materiais para oficializar
suas leituras da história, mas outrossim,
de gente simples, que apesar de não dominar
os substratos científicos e acadêmicos,
são pessoas que a sua maneira racionalizam
e interagem intuitivamente com essa história,
ou seja, sem abarcar as incontáveis possibilidades
de resgatar o passado estaremos aprisionados não
a História, mas, a uma fábula ritualizada
e chancelada por apriorismos que negligenciam
as pérolas escondidas nos intelectos simples,
circunscrevendo nosso diálogo entre as
temporalidades.
Acontecimentos como as cruzadas medievais e seus
imperativos, cujas forças motrizes, tiveram
origem na mentalidade religiosa, concomitantemente
com os interesses comerciais, somadas as questões
demográficas da época, respondendo
assim pelo ideário dessas ações
legitimadas por uma mentalidade em comum. Podemos
verificar a simbiose entre o arcabouço
ideário e a forma com que uma dada sociedade
se relaciona com o mundo físico, a exemplo
disso temos os modos de produção,
como o feudalismo, bem como o capitalismo que
lentamente fora gerado das ruínas feudais,
iniciado pelo mercantilismo. A inquisição
chancelada pela igreja, que pregava o amor e o
perdão, mas, que matava em nome da fé,
enfim, os anacronismos e antíteses em todos
esses períodos se caracterizavam por mentalidades
com certo nível congruência, simetria
ao sistema, se não de maneira plena, mas,
em caráter hegemônico, tanto que
fora exeqüível. Todas as utopias sociais
e devaneios são igualmente valiosos para
um mapeamento sobre aquilo que exaspera, que busca
uma dada sociedade, aquilo que lhe afligi, seus
incômodos.
.
De fato utopia é a negação
de um presente medíocre e sufocante, é
o espaço futuro sem limites, sustentado
pelo desejo, é sonho apaziguador de regresso
a perfeição das origens, é
reencontro do homem consigo mesmo. [...] De qualquer
maneira, a imaginação utópica
é um produto da História que nega
a História [...] A utopia é nostálgica,
busca a harmonia edênica, é portanto
um mito projetado no futuro.[4]
Quando
Max Weber aborda a questão da congruência
entre mentalidade religiosa e modos de produção,
em sua obra "A ética protestante e
o espírito do capitalismo", que sumariando
liga a práxis religiosa à forma
pela qual uma sociedade produz suas condições
materiais de sobrevivência, o feudalismo
em consonância com catolicismo, que legitimava
a ordem estabelecida, condenava a usura, incentivava
o ócio, por assim dizer, e principalmente
negava uma ascensão na hierarquia social,
prometendo então uma recompensa pós-vida.
O capitalismo já em uníssono com
protestantismo teria como substrato o ascetismo,
a usura agora seria permitida, uma ascensão
social aceitável e o dogma do trabalho
para colher ainda em vida as bênçãos
divinas. Coincidência ou não as religiões
apesar de todo seu apelo transcendental, meta-humana,
invariavelmente se portou ao longo da história
em cumplicidade com o universo secular, como diria
Mikhail Bakunin:
Numa
palavra, não é nada difícil
provar, com a história na mão, que
a Igreja, que todas as Igrejas, cristãs
e não cristãs, ao lado de sua propaganda
espiritualista, provavelmente para acelerar e
consolidar seu sucesso, jamais negligenciaram
de organizar grandes companhias para a exploração
econômica das massas, sob a proteção
e a bênção direta e especial
de uma divindade qualquer; que todos os Estados
que, em sua origem, como se sabe, nada mais foram,
com todas as suas instituições políticas
e jurídicas e suas classes dominantes e
privilegiadas, senão sucursais temporais[...]
No que diz respeito a isto, o protestantismo é
muito mais cômodo é a religião
burguesa por excelência. Ela concede de
liberdade apenas o necessário de que precisa
o burguês e encontrou o meio de conciliar
as aspirações celestes com o respeito
que exigem os interesses terrestres. Assim, foi
sobretudo nos países protestantes que o
comércio e a indústria se desenvolveram.[5]
O
passado e presente se confundem nas mentalidades,
o que soa inverossímil, híbrido
e anômalo, entretanto a inteligibilidade
dos fenômenos sociais e humanos, os costumes,
idéias, enfim, esses aspectos situam-se
numa área de entroncamento onde diálogos
precisam invariavelmente ser feitos, precisamos
mapear e encontrar o exato ponto de junção,
o amálgama entre o inconsciente e o intencional,
o individual e o coletivo, o público e
o privado. Dessa maneira teremos senão
a verdade histórica, mas ao menos não
seremos reféns de prolixas dissertações
demasiadamente intelectualizadas, garbosas, mas
despidas de espírito e verossimilhança.
Não podemos incorrer no erro de dar primazia
aos comportamentos da elite ou do proletariado,
ou mesmo atribuir proeminência a um determinado
agente histórico e sim encontrar o que
há em comum entre os diferentes estratos
sociais, a simetria idearia entre os pólos,
aquilo que faz com que coexistam numa mesma realidade
histórica, mesmo diante de um confronto
patente.
A mentalidade permeia as formas surdas e mudas
das ações, aquilo que parece improviso,
insólito, realizado mecanicamente, tudo
isso na verdade representa as pulsões domesticadas,
a reprodução de uma herança
muitas das vezes imperceptível, resultado
de uma infusão de idéias que passam
a ser internalizadas, levadas a uma dimensão
bem próxima do inconsciente. Essas estruturas
são as que mudam mais lentamente, o que
gera constantemente uma dissonância com
a realidade histórica concreta.
Sendo assim a mentalidade corresponde a uma idiossincrasia
coletiva, ou seja, a forma pela qual uma sociedade
se percebe e se relaciona com seu entorno, com
sua realidade, como ela explica e entende o que
acontece a sua volta, como ela enfrenta o inteligível
e o ininteligível, o sagrado e o profano,
o que é moral e que não é,
o que é condenável e o que é
permitido, questões como sorte, azar, o
mau olhado, as superstições, nossas
preces para São Jorge ou para Ogum. O coletivo
com suas leis, seus instrumentos de coerção,
suas sentenças, sua relação
com a morte, sua música, seus ritos, sua
ambiência, mitos, todos esses e outros tantos
infindáveis aspectos nos permitem mapear
o universo mental da humanidade. Enfim um emaranhado
de conexões que consubstanciamos a fim
de perceber maiores esperanças, sem que
de fato tenhamos alguma garantia de sucesso, mas
que ao menos nos proporciona uma certa segurança.
Temos outrossim a coexistência de diferentes
mentalidades numa dada época, uma espécie
de antinomia ou anomalia sistêmica que gera
conflitos devido à incongruência
de ações e reações
com a realidade histórica. Isso fica evidente
ao abordarmos a doença do nosso século,
o estresse, gerado por uma frenética vida
imposta pela cada vez mais exigente e concorrida
vida moderna, comprometendo o lazer, o enlace
familiar, as relações altruísticas,
causando uma grave crise identitária e
existencial.
A consecução epistemológica
das mentalidades deve ser cuidadosa para evitar
anamorfoses apriorísticas, uma vez que
não se trata de um mero reflexo mecânico
engendrado por implacáveis corpos de idéias,
muitos menos imposições, mas, são
a construção e desconstrução
de teorias, normas, enfim, a mentalidade é
forjada pelo confronto, por uma equação
em desequilíbrio que teima por se equilibrar,
que esta ligada ao social mas não de maneira
subjacente, não como apêndice, não
é gerada por um indivíduo por mais
proeminente que este seja, a mentalidade é
obrada pela coletividade, porém não
necessariamente há um consenso, cada grupo
mesmo vivendo num mesmo tempo possuirá
diferentes nuances, entender a mentalidade é
olhar por de traz do espelho, é procurar
o anverso do avesso, entendendo de uma vez por
todas que o passado pode estar separado do presente
pelo tempo, mas seus inexoráveis enclaves
fantasmagóricos nos assombrarão
no corpo e na mente, nos possuindo e manifestando-se
em forma de medo, medo do novo.
*Historiador, pesquisador e estudioso da
História dos Marginais, autor de diversos
artigos e ensaios sobre exclusão social,
transição Império-república,
escravismo-capitalismo.
[1]
BACON, Francis. Novum Organum ou Verdadeiras
Indicações Acerca da Interpretação
da Natureza. São Paulo. Abril Cultural,
1979, p. 15.
[2]
HUXLEY. Aldous. As Portas da Percepção.
Tradução Oswaldo de Araújo
Souza. São Paulo. Globo 2002, p. 5.
[3]
FERRO, Marc. Os Tabus da História.
(tradução Maria Ângela Villela).
Rio de Janeiro: Ediouro, 2003, p. 7.
[4]
FRANCO JUNIOR, H. As Utopias Medievais.
São Paulo: brasiliense,1992, p. 12,13.
[5]
Deus e o Estado, cujo título não
foi de autoria de Bakunin, recupera a primeira,
de 1882, organizada por Carlo Cafiero e Elisée
Reclus, publicada em Genebra pela Gráfica
Juraciana. No livro Bakounine - combats et
idées, lançado pelo Instituto
de Estudos Eslavos, Paris, 1979, p. 242.
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