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Ricardo
Corrêa Peixoto*
em 17 maio de 2008
A
discussão aqui proposta trata-se do pleonástico
tema sobre as formas de ensinar e aprender história,
que por muitos anos temos debatido sobre os métodos
que possam consubstanciar essa até então
utopia pedagógica que é fazer a
conexão entre texto e contexto, aluno e
cidadão, acabar com essas dicotomias, esses
hermetismos. Amalgamá-los é o cerne
dos nossos debates alusivos aos ranços
positivistas, factuais, episódicos. Onde
a história se apresenta de forma teatral
e, o que é pior num teatro onde os papéis
já foram pré-estabelecidos, nos
restando apenas a introjeção do
papel que nos foi outorgado.
É sintomática uma aversão
quase unânime pelo conhecimento histórico.
Eis aí uma afirmativa verossímil,
óbvia, mas, que espeta nosso intelecto
e, temos nos perguntado se esse mal sistêmico
que é a indiferença, a passividade
dos alunos frente à história e as
demais ciências humanas, cuja corolário,
ou conseqüência, tem engendrado verdadeiros
"autistas sociais" que, por conseguinte,
fá-los "bestializados", espectadores
de um país ou mundo alienígena,
feito a sua revelia.
[...]
o povo que pelo ideário republicano deveria
ter sido protagonista dos acontecimentos, assistia
tudo bestializado, sem compreender o que se passava,
julgando ver talvez uma parada militar [...] Na
república que não era, a cidade
não tinha cidadãos. Para a grande
maioria dos fluminenses, o poder permanecia fora
de alcance, do controle e mesmo da compreensão.
Os acontecimentos políticos eram representações
em que o povo comum aparecia como espectador ou,
no máximo, como figurante.
Tudo
isso se torna muito sério se pensarmos
que um aluno que sumariamente despreza a história,
não conheça e, não se perceba
nela, logo, inviabiliza a construção
da cidadania e conseqüentemente de um país
mais justo e mais humano. Quantos de nós
se mobiliza, diante das escolas públicas
vilipendiadas ou ainda do das mazelas da saúde
pública, é muito mais cômodo
pagarmos uma escola particular, ou pagar por um
plano de saúde, enfim, nos enclausuramos
dentro de nosso egoísmo covarde, porque
o que é público é dos outros,
pensamentos assim que tornam perenes nossa triste
realidade.
Não estamos querendo dizer que a história
é a única responsável pela
construção da consciência
cidadã, mas é parte integrante,
inalienável desse processo, que por uma
deficiência crônica tem dado cria
a mentes masoquistas, que se regozijam com seu
próprio espólio, se divertindo com
os "mensalões" e "mensalinhos",
achando lúdico, bem a moda brasileira,
que não sabemos bem se é fruto de
nossa práxis política peculiar,
que se reveste de humor, ou se é puramente
pela incapacidade e covardia de intervir, de nos
agrupar e lutar por nós mesmos, de vociferar
nossa reprovação e exigir uma existência
digna.
A metodologia utilizada como um mapa, como uma
representação cartográfica
que nos orienta a fim de que consigamos completar
o percurso do saber, que como tesouro escondido
precisa ser desenterrado e como nos filmes e nas
literaturas essa descoberta nunca se dá
de maneira fácil, sem disputas ou obstáculos,
mas, trata-se de uma aventura que desafia nossos
limites. Sem o método desorientamo-nos
somos entregues aos infortúnios da ignorância.
Entretanto, a metodologia não deve trabalhar
hermética, dissociada dos conteúdos,
deve antes proceder em uníssono com as
abordagens, a fim de permitir a estruturação
desses conteúdos.
Vale ainda ressaltar a questão que define
a escola como um mero local de mimeses, de reprodução,
de mímica das leis indeléveis, inelutáveis,
emanadas do conhecimento científico, cuja
presunção em determinar e delinear
todas as engrenagens que movem esse mundo, suas
conjeturas cristalizam-se em meio às pretensões
de onisciência. A metodologia que a ciência
usa diverge daquela aplicada na escola, que de
maneira circunscrita não tem levado os
alunos a decifrarem os caminhos que possibilitaram
esses conhecimentos, ou essa teoria e, principalmente
apreender as proposições admitindo
sua falibilidade. A escola relegada, imaginada
apenas como espaço de informação,
de cabide de teorias cientificas, torna-se pueril,
em seu propósito, insignificante em sua
importância. Essa antinomia entre as metodologias
cientificas e escolar que deveriam ser indissociáveis,
tem proporcionado a impressão, ou a sensação
de que o saber é alienígena, inexcedível
para os simples, só sendo possível
aos cientistas, seres superdotados, os únicos
capazes de desvelar os enigmas universais.
O ensino de história que privilegia uma
abordagem memorialista, narrativa, unilinear que
preestabeleça os percursos humanos, que
afirme categoricamente ao invés de supor
e duvidar das certezas, uma história emoldurada
pouco diz, mesmo querendo dizer muito, é
o que ocorre com os volumosos conteúdos
despejados nas aulas, que só enfadam os
alunos, causando-lhes aversão, comprometendo
enfim, toda uma vida.
[...]
A busca do saber é o caminho para perfeição
humana, dizia introduzindo na história
do pensamento a discussão sobre a finalidade
da vida. [...] O papel do mestre é, então,
o de ajudar o educando a caminhar nesse sentido,
despertando sua cooperação para
que ele consiga por si próprio "iluminar"
sua inteligência e sua consciência.
Assim, o verdadeiro mestre não é
um provedor de conhecimentos, mas alguém
que desperta os espíritos. Ele deve segundo
Sócrates, admitir a reciprocidade ao exercer
sua função iluminadora, permitindo
que os alunos contestem seus argumentos da forma
que contesta os argumentos dos alunos.
É
de responsabilidade do professor de História,
compreender e explicar os percursos das sociedades
humanas, bem como clarificar para os alunos a
dinâmica dessa caminhada, as sinomias e
antinomias, fazê-los entender que sua realidade
não é e nem sempre foi assim e que
ele é co-participante dessa aparente ordem
que é estabelecida pelo caos. "O conteúdo
da História não é o passado,
mas, o tempo (...)" . Seu imaginário
seria assim explorado para armá-lo de instrumentos
que criem nele uma consciência histórica
até então hibernada.
[...]espera-se muito mais de um professor. Sua
"interpretação" na sala
de aula é pouco. Seguir a partitura é
escravizar-se ao autoritarismo de um livro. Ele
tem a obrigação de criar atividades,
inventando maneiras de levar o aluno a construir
o próprio mundo intelectual.
A
história deve mudar sua postura, cujo aspecto
proeminente seria a questão da linearidade
do tempo, a identificação da marcas
das diversas temporalidades ao invés de
compreender como essas marcas foram impressas
e por quais motivos, enfim, o processo é
muito mais valioso do que o fato, o acontecimento
em si, porque o desenrolar nos revela a genealogia,
os embates, as intrigas, o imaginário.
As idiossincrasias de uma época respondem
pela forma com que as pessoas vão trabalhar,
cultivar, escrever, se relacionar, enfim, o imaginário
e a realidade interagirão e construirão
a face de um tempo, essa perspectiva deve ser
o objetivo a ser perseguido pelos docentes que
pretendem estabelecer uma verdadeira simbiose
com seus alunos.
O ensino de história como parte dessa regra
deve promover um pensar, dar liberdade intelectual
para que os alunos singrem as águas turvas
e agitadas de sua realidade social, "Ensinar
História é aprender com o plural
e o singular" . Dando inteligibilidade as
diferentes temporalidades, estabelecendo a conexão
entre o imaginário e a realidade objetiva,
como forma de desmistificar pela compreensão
um mundo aparentemente desconexo, alheio, sendo,
portanto, muito mais cômodo o desdenho,
a inconsciência, a leviandade, perpetuando
assim, muitos que preferem essa atitude a sua
condição de apêndice social.
[...] formar é muito mais do que puramente
treinar [...] Significa reconhecer que somos seres
condicionados, mas não determinados. Reconhecer
que a História é tempo de possibilidades
e não de determinismo, que o futuro, permita-se-me
reiterar, é problemático e não
inexorável.[...] não há docência
sem discência [...] Quem ensina aprende
ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.
[...] ensinar não é transferir conhecimento,
mas criar as possibilidades para a sua produção
ou construção.
Por
tudo isso, podemos afirmar que tem ocorrido uma
incongruência entre a maneira que nos propomos
ensinar já há muito tempo antiquada
frente a um mundo múltiplo, amorfo, implacável,
que classifica friamente quem pode e quem não
pode participar do processo produtivo. Por isso
mesmo, todas as nossas iniciativas pedagógicas
devem confluir a fim de trazer a lume o tão
sonhado conhecimento, que preferimos chamar aqui
de entendimento, que possibilite a quebra dos
monopólios do saber, que ao longo de nossa
história tem condenado uma grande parcela
do nosso povo a servidão e a miséria.
Fora
preciso muito menos do que o equivalente desse
discurso para arrastar homens grosseiros, fáceis
de seduzir, [...] Todos correram ao encontro de
seus grilhões, crendo assegurar sua liberdade
[...] Tal foi ou deveu ser a origem da sociedade
e das leis, que deram novos entraves ao fraco
e novas forças ao rico, destruíram
irremediavelmente a liberdade natural, fixaram
para sempre a lei da propriedade e da desigualdade,
fizeram de uma usurpação sagaz um
direito irrevogável e, para proveito de
alguns ambiciosos, sujeitaram doravante todo gênero
humano ao trabalho, à servidão e
a miséria.
Nosso
desafio é quebrar esse paradigma que torna
a história uma disciplina desprestigiada,
sendo sua utilidade questionada, uma vez que é
dada tanta importância a datas, números,
heróis, enfim, há uma distancia
abissal entre texto e contexto imprimindo a disciplina
uma caracterização enfadonha e desestimuladora.
É preciso levar a história para
mais perto dos alunos, ou mesmo levá-los
para mais perto da história, fazê-los
perceber parafraseando Ferreira Gullar, "que
a história humana não ocorre apenas
nos gabinetes presidenciais ou nos campos de batalha,
mas, também nos quintais entre plantas
e galinhas, nos prostíbulos, nas escolas,
nas casas de jogos e nos namoros da esquina".
Ou mesmo como Carlo Ginsburg que dizia que "a
história de uma nação nada
mais é do que uma análise integrada
das histórias regionais", ora o que
é a história do Brasil? Ou a do
mundo? Da humanidade? Nada mais é do que
os erros e acertos, das vitórias e dos
fracassos, dos sorrisos e das lágrimas,
do abrir de uma rosa ou do esterco que a alimenta,
da opulência e da escassez.
Enfim, a história não obedece ao
tempo cronológico, ou mesmo a lógica,
não tem as virtudes da precisão
matemática, sendo simultaneamente a imperfeição
a fonte de sua maior força e maior fraqueza,
logo, Aplicar a história com inteireza
significa fundir o micro e macro, onde o negro,
o branco, o índio, o pobre e o rico, os
vencedores e os vencidos, tenham seus espaços
salvaguardados, e suas contradições
sejam observadas porque irrevogavelmente eles
são co-participantes do processo histórico.
Nós professores de história temos
inelutavelmente o dever de mostrar aos alunos
que o mundo não foi e não é,
mas, está sendo e que ele é parte
inalienável dessa grande confusão.
* Graduado
em História e autor de diversos artigos
e ensaios, dentre eles: "Crioulos Pretos":
um ensaio sobre a práxis social urbana
e o cotidiano dos desclassificados da ordem imperial,
na passagem para a republicana no Rio Janeiro,
de 1888 a 1904. Publicado pela Fundação
Centro de Ciências e Educação
Superior a distância do Estado do Rio de
Janeiro - CECIERJ.
CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados:
Rio de janeiro e a República que não
foi. São Paulo: Cia da Letras, 1987, p.
40.
LUCITA, Briza. O Mestre que desafiou o homem
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2005.
Sônia L. Nikitiuki (Org.), Repensando
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CASTRO, Cláudio de Moura. Professores
e pianistas. Nova escola, a revista do professor,
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Sônia L. Nikitiuki (Org.). Repensando
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia:
saberes necessários à prática
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ROUSSEAU, Jean-jacques. Os Pensadores.
(tradução de Lourdes Santos Machado).
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