|
Ricardo
Corrêa Peixoto*
em 17 maio de 2008
"Xenofonte
escreve: As pessoas que se dedicam aos trabalhos
manuais nunca são elevadas a altos cargos
e é razoável. Condenadas na sua
grande parte a estar sentadas todo o dia, algumas
mesmo a suportar um fogo contínuo, não
podem deixar de ter o corpo alterado e é
muito difícil que o espírito não
se ressinta disso." ( PAUL LAFARGUE, Direito
a Preguiça, LCC, publicação
eletrônica)
Neste
breve artigo escolhemos tratar da genealogia,
por assim dizer, do trabalho doméstico,
poderíamos ter escolhido qualquer outra
função e/ou atribuição
considerada residual no seio da sociedade capitalista,
onde os salários e o status, são
igualmente residuais; é o caso dos garis[1],
pedreiros, serventes, bóias frias, e toda
gama de profissões cuja especialização
e o grau de proficiência são minimamente
exigíveis, ou seja , são consideradas
atividades de caráter rudimentar, onde
a capacidade cognitiva não teria tanta
relevância, comparando-se a outras áreas,
posições conspícuas cujo
credenciamento estaria atrelado à inteligência
do indivíduo e por sua capacidade de realizar
tarefas complexas, ininteligíveis para
insipientes.
Essas simplórias premissas buscam legitimar
as gradações e a divisão
social do trabalho, a quem diga que o fordismo
morrera, que a diferença entre escritório
e o chão da fábrica fora dissolvido
por metodologias e paradigmas de inclusão
e co-participação, mas, a realidade
que escapa as teorias dos grandes administradores,
mostra que a especialização e a
segregação funcional na sociedade
capitalista contemporânea, tem inexoravelmente
ofendido de maneira contumaz, pessoas cujas oportunidades
lhes ofereceram um campo existencial limitado,
a História mostra que a realidade é
múltipla, ou seja, ricos e pobres; católicos
e protestantes; jovens e velhos mesmo estando
num mesmo tempo histórico decodificam sua
realidade e a circunscrevem de numa maneira peculiar,
construindo assim uma identidade, sua interface
com o mundo, logo, muito do que as pessoas são,
ou vão se tornar, dependerá dos
aparatos culturais e/ou existenciais colocados
a sua disposição. Ou seja, o que
seria dos gênios do nosso tempo se não
fossem municiados dos conhecimentos que lhe deram
a base para seus descobrimentos, seria como esperar
que um índio do Xingu construísse
uma bomba atômica, em primeiro lugar, seu
arcabouço cultural não conceberia
tal aparato, não haveria lógica,
nem matéria prima, nem conhecimentos prévios,
enfim, é como alguns antropólogos
dizem: "temos um aparato biológico
preparado para viver mil vidas", dependendo
é claro de qual delas formos agraciados.
A partir do exposto, podemos definir que as ambigüidades
das atividades profissionais e seu corolário
de satisfação ou de marginalização,
advém de desigualdades artificiais, convenções
historicamente delimitadas, cujas raízes
podemos encontrar através de uma ressonância
cuidadosa da história das civilizações
e nosso caso mais precisamente, do passado escravista
brasileiro, que engendrou classificações
no mínimo equivocadas, anamorfoses que
deliberaram o que teria valor e o que não
teria, construindo muros virtuais que protegiam
os afortunados dos desvalidos.
O
liberto defrontou-se com a competição
do imigrante europeu, que não temia a degradação
pelo confronto com o negro e absorveu, assim as
melhores oportunidades de trabalho livre e independente
(mesmo as mais modestas, como a de engraxar sapatos,
vender jornais e verduras, transportar peixe ou
outras utilidades, explorar o comercio de quinquilharias,
etc.). [...] eliminado para setores residuais
daquele sistema, o negro ficou à margem
do processo, retirando dele proveitos personalizados,
secundários e ocasionais [...]. Em suma,
a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio
destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade
de reeducar-se e de transformar-se para corresponder
aos novos padrões e ideais de homem, criados
pelo advento do trabalho livre, do regime republicano
e do capitalismo. [2]
Obviamente
em se tratando das empregadas domésticas
[3], que ao longo do tempo sua designação
passou por mudanças sinonímias,
porém semanticamente os termos predecessores,
a saber: mucama [4]; criada [5] e serva [6], cristalizaram
e/ou internalizaram a mediocridade funcional e,
por conseguinte, remuneratória; tanto que
apenas recentemente, após quinhentos anos
as empregadas domésticas passaram a possuir
alguns dos direitos que já são gozados
há décadas pelos demais trabalhadores
de outras atividades, obviamente que seus salários
permanecem infinitesimais, mesmo sendo um trabalho
árduo, vital para a consubstanciação
tanto do modelo tanto do sanitário vigente,
onde a limpeza e organização são
apanágios imprescindíveis a uma
casa de "gente bem"; bem como da estrutura
familiar de hoje cujos pais também trabalham
fora e deixam suas casas nas mãos de pessoas
que não tiveram outra escolha senão
executar os trabalhos "indesejáveis",
como se o que as domésticas fizessem fosse
algo sujo, degradante. Mas infelizmente é
isso que fica patente ao observarmos o bônus
destinados a elas, sabemos que os discursos humanos
se contradizem ao observarmos suas ações.
A história das domésticas brasileiras
se confundem com a história de nosso escravismo,
não só ela mas quase todas as funções
desprestigiadas, pois, ao ex-escravo restavam
as ocupações residuais como diria
Florestan Fernandes, para esta afirmação
corroboram os jornais da época e mais precisamente
os classificados de empregos, que denunciam concomitantemente
as opções destinadas às pessoas
de cor, que mesmo após a abolição
e proclamação da República,
estavam patentes não apenas as desigualdades
econômicas, mas, e sobretudo, as desigualdades
existenciais, àquelas que possibilitam
o vislumbrar, a esperança em conquistar
um torrão do grão-pátrio.
Citaremos as ocupações mais oferecidas
dentre as várias delimitadas e deliberadamente
reservadas aos negros, mesmo após a abolição,
já em plena República, são
elas: "carregador de caixas", "cozinheiro",
"copeiro", "caixeiro", "costureiras",
"vendedores de bala", "carregador
de pão", "lavadeira", "mucama",
"saieiras", "carregador de cestos",
"tiradores de goiabas", "ajudante
de alfaiate", "charuteiro", "official
barbeiro", "padeiro", "forneiro",
"carpinteiro", "ama seca",
"ama de leite", "ajudante de cozinha",
lavador de pratos" e aparecendo de maneira
esmagadora a função de "criada",
em todos os classificados verificados a referência
à cor é aquilo que chancela, credencia
a ocupação desses postos e, nesses
casos em que citamos acima onde as funções
são as menos remuneradas e portanto as
que exigem menos qualificação, ou
seja, são funções residuais,
"inferiores" dentro da hierarquia ocupacional
capitalista, como o são até hoje,
é o caso da criada, nossa empregada doméstica,
classe com os menores níveis salariais
e que menos dispõe das garantias legais
do trabalhador. Transcreveremos alguns textos
desses jornais a fim de contextualizar nossas
inferências.
"Precisa-se de uma criada de cor preta: rua
Visconde de Sapucahy n. 169ª"; "Precisa-se
de uma criada de cor preta, que cozinhe e lave;
na rua Guarda velho n. 30."; "precisa-se
de uma negrinha para arranjos de casa e lidar
com crianças, paga-se 15$; no Centro Ouvidor
n. 20, 1ª andar.". "precisa-se
de uma preta de meia idade que saiba cozinhar,
na rua da Ajuda n. 27, 1ºandar"; "Precisa-se
de uma preta velha para cozinhar e lavar, que
durma na casa; na rua general Polydoro n. 24.";
precisa-se de uma rapariga preta para ama seca;
na rua Senador Eusébio n. 9, sobrado.";
"Precisa-se de uma preto quitandeiro, que
seja fiel e sem vícios, na rua Haddock
Lobo n. 18F."; "Precisa-se de uma crioulinha
de 12 a 13 anos para andar com crianças
de anno emeio; rua da Passagem n. 67, Botafogo."
"Precisa-se de uma senhora de idade ou de
uma preta velha para serviços leves; na
rua da rua da Ajuda nº 187, 2ºandar."[7]
As modestas modalidades oferecidas ao negro não
permita a ele reverter seu quadro de exclusão,
de anomia social, pois suas alocações
eram análogas ao período escravista,
o que insistia em internalizar na idiossincrasia
social o gênero subjacente do negro.
Os negros e os mulatos ficaram à margem
ou se viram excluídos da prosperidade geral,
bem como dos seus proventos políticos,
porque não tinham condições
para entrar nesse jogo e sustentar as suas regras.
Em conseqüência, viveram dentro da
cidade, mas não progrediram com ela e através
dela. Constituíram uma congérie
social dispersa pelos bairros, e só partilhavam
em comum uma existência árdua, obscura
e muitas vezes deletéria. Nessa situação,
agravou-se, em lugar de corrigir-se, o estado
de anomia social transplantado do cativeiro [...]
quase meio século após da abolição
o negro e o mulato ainda não tinham conquistado
um nicho próprio e seguro dentro do mundo
urbano, que fizesse daquele estágio um
episódio de transição, inevitável
mas transponível. Pagaram com a própria
vida, ininterruptamente, os anseios da liberdade,
de independência e de consideração
que os animavam a "tenta a sorte", usufruindo
magramente das compensações materiais
e morais da civilização urbana [...]
As posições mais cobiçadas
mantinham-se "fechadas" e inacessíveis;
as posições "abertas"
eram seletivas segundo critérios que só
episodicamente podiam favorecer pequeno número
de "elementos de cor". [8]
Estratégia
velada, inconsciente ou deliberada, não
importa, a questão é que os papéis
ínfimos dentro do mercado de trabalho oferecidos
aos egressos do escravismo, ajudou e tem ajudado
a perpetuar a debilidade econômica e, por
conseguinte, social, calando sua voz diante de
um sistema econômico arraigado a práticas
racistas de seleção, alimentando
anacronicamente um sentimento colonial, cuja perenidade
forjou uma espécie de inconsciente coletivo.
Logo, despreparado, descrente, abandonado a sua
própria sorte, o negro carecia de quase
tudo, não houve nenhum planejamento ao
despejá-los em um mundo cuja lógica
seria ininteligível para um ex-cativo.
Assim, sem tempo para se adaptar, se reeducar
e, internalizar o ethos de um trabalhador livre,
sem meios para competir com os brancos, e aspirar
à ocupação de posições
mais valorizadas os negros portavam-se de maneira
dispersa, quase neurastênica.
Trazemos este tema à baila num momento
de verdadeira revolta e como forma de protesto,
sim, sem nos preocuparmos com críticas
sobre nosso cientificismo, pois, como assistimos
também o descaramento e a total ausência
de constrangimento com que a mídia destaca
as atividades como: faxineiras, garis, peões,
enfim, são estereotipadas como sendo a
consubstanciação do malogro, pois,
é muito comum as telenovelas se reportarem
a essas profissões de forma desrespeitosa,
mesmo que camuflada em pó de arroz de uma
ingenuidade grotesca Todos devem ser lembrar da
personagem vivida por Guilhermina Ginle que ao
final da novela "Paraíso Tropical",
recebera como "castigo", por assim dizer,
um final "infeliz", pelo menos era o
que provavelmente o autor devia ter em mente quando
a "ridicularizou" colocando-a na pele
de um gari do Rio de Janeiro, como se essa profissão
fosse uma penitência, o mesmo aconteceu
recentemente a um casal de senhores na novela
Sete Pecados que simplesmente tinham aversão
ao trabalho de faxineiros de um hotel luxuoso
e conquistam um final majestoso ao ganharem na
loteria e livrando-se desse "martírio"
que seria o serviço de limpeza.
O pior é que as autoridades também
reverberam esse ideário preconceituoso,
tanto que tem adotado como penitência a
jovens infratores, o "castigo" de realizar
por alguns dias serviços de gari, situação
esta que fora recebido com indignação
pela classe que se diz insultada, porque sua profissão
não deve ser vista como um mero castigo
e tratada com repugnância, eles se dizem
orgulhosos de fazer o que fazem. Outro aspecto
patente nas telenovelas concerne no padrão
estabelecido das empregadas domésticas,
ou seja, a sua maioria composta de negras, até
aí concordamos, uma vez que essa é
infelizmente a nossa realidade, pois, como já
explanamos tem raízes em nosso escravismo.
A questão é até quando trataremos
com tamanho desdenho gente que trabalha duro,
fazendo aquilo que os diplomados e engravatados
consideram humilhante realizar, por isso legaram
aos "subalternos", mas como se já
não bastasse à carga de trabalho
e paradoxalmente os salários aviltados,
ainda encontram outras maneiras de vilipendiar
as pessoas simples que sem vergonha alguma lutam
por sobreviver a partir dos meios que elas dispõe,
desafiando com o peito aberto um mundo cujo glamour
depende do trabalho deles que pegam no pesado
e na sujeira, mas cujas mãos não
estão tão sujas quanto aquelas que
são responsáveis pelo imobilismo
na estrutura social brasileira.
*Historiador,
pesquisador e estudioso da História dos
Marginais, autor de diversos artigos e ensaios
sobre exclusão social, transição
Império-república, escravismo-capitalismo.
[1] Gari [Do antr. (Aleixo) Gary, incorporador
de uma antiga empresa incumbida da limpeza das
ruas cariocas.] Substantivo de dois gêneros.
1.Empregado da limpeza pública que varre
as ruas; lixeiro: "Não se viam papéis
pelas sarjetas; os garis mantinham as ruas impecáveis"
(Maria Julieta Drummond de Andrade, Um Buquê
de Alcachofras, p. 32). Novo Dicionário
Eletrônico Aurélio versão
5.0 © O Novo Dicionário Aurélio
da Língua Portuguesa corresponde à
3ª. edição, 1ª. impressão
da Editora Positivo, revista e atualizada do Aurélio
Século XXI, O Dicionário da Língua
Portuguesa, contendo 435 mil verbetes, locuções
e definições. ©2004 by Regis
Ltda.
[2]
FERNANDES, Florestan - A Integração
do negro na sociedade de classes. São Paulo:
Editora Ótica, 1978, p. 19-20.
[3]
Doméstica [F. de doméstico (4).]
Substantivo feminino. 1.Empregada doméstica;
empregada, criada. [Cf. domestica, do v. domesticar.]
Op. Cit.
[4] Mucama [Do quimb. mu'kama, 'amásia
escrava'.] Substantivo feminino. 1. Bras. Angol.
A escrava negra moça e de estimação
que era escolhida para auxiliar nos serviços
caseiros ou acompanhar pessoas da família,
e que, por vezes, era a ama-de-leite. [Var. (bras.):
mucamba e camba2. Cf. macuma.]. Idem, ibidem.
[5] Criada [Fem. de criado (2 e 3).] Substantivo
feminino. 1.Mulher empregada no serviço
doméstico; empregada, doméstica.
Idem, ibidem.
[6] Servo (é) [Do lat. servu.] Substantivo
masculino. 1.Aquele que não têm direitos,
ou não dispõe de sua pessoa e bens.
2.Na época feudal, indivíduo cujo
serviço estava adstrito à gleba
e se transferia com ela, embora não fosse
escravo. 3.Criado, servidor, servente; serviçal.
4. Escravo (6): servo do dever. Adjetivo. 5.Que
não é livre. 6.Que presta serviços;
serviçal. 7.Que tem a condição
de criado ou escravo. [Cf. cervo.] serva [Do lat.
serva.] Substantivo feminino. 1.Criada, empregada.
2.Mulher absolutamente sujeita a outrem; escrava.
[Cf. cerva.]. Idem, ibidem.
[7] BIBLIOTECA Nacional. Setor de Microfilmes.
Jornal do Commercio, 01 de janeiro de 1888; 08
de janeiro de 1890; e 14 abril de 1901.
[8]
FERNANDES, Florestan -- Op. Cit. p. 17-29.
|