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Os dias de um personagem fictício


Tomaz Tiago Luedke
- em 18/03/2006

Trabalho, livros e fins-de-semana. Essa era a vida de Simão Ferraci, sendo que o trabalho lhe tomava tempo, algumas vezes, fora do trabalho; os fins-de-semana queriam tomar a segunda-feira emprestada; e os livros, bem, os livros eram a fantasia de algo fora de tudo o que o rodeava, não das pessoas que gostava, mas das obrigações.

Tinha família, tinha mulher, mas sem filhos. Era vida tranqüila essa do Simão. Nada muito fora do comum. Cidade pequena, poucas pessoas conhecidas – um cidadão comum.

Sempre ao chegar na companhia em que trabalhava, a “O que você quiser é seu”, tentava chegar à sua sala sem chamar muita atenção, pela manhã ele levava duas, às vezes três horas para acordar de verdade. O chefe, um tipo gordo, daqueles que senta na cadeira e as pernas (da cadeira e de Simão) tremem, sempre com uma gota de suor escorrendo, tinha um ar sofrível, de alguém que vem para derrubar uma parede, como um rinoceronte, só que sem chifres, eu acho.

Tudo era tranqüilo, a não ser quando o chefe ia em sua direção. Ele sabia que vinha bomba para o seu lado. Não conseguia agir normalmente, não conseguia pensar, era com se tivesse ocorrido um bloqueio no cérebro.

- Sim, pode deixar. Com certeza. Eu resolvo. – as únicas palavras que conseguia pronunciar. E aí ele estava perdido, provavelmente havia se comprometido a resolver mais um problema impossível de ser resolvido. O nome da empresa já dizia: O que você quiser é seu. Pobre Simão Ferraci.

Bem, quando chegava em casa, se não houvesse tarefas domésticas, ia mergulhar em alguma tradução de romance estrangeiro. O problema, que ele teria que resolver no trabalho amanhã, não saia de sua cabeça. A cliente havia pedido um vestido que não fosse lhe deixar muito gorda, que não demarcasse suas curvas. Missão aparentemente fácil. O vestido lindo, de qualquer cor, tamanho, corte, ele encontraria, mas e o que fazer com os 120 Kg da cliente? Essa era a sina de todos os Ferraci.

Tudo bem, era quinta-feira. O fim-de-semana estava próximo, logo teria um descanso, mesmo que temporário, dessas chatearias. Claro que só até domingo, lá pelas 6 horas da tarde, quando lembraria que tudo começaria novamente. Mas como é quinta-feira, deixaria que a ilusão de um sábado que ainda estava por vir o levasse para longe dos problemas. Não bebia, não fumava, não se drogava. Ele tinha eram ilusões de dia-a-dia.

 

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