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Ricardo
Corrêa Peixoto*
em 17 maio de 2008
"A
história do uso de drogas constitui um
dos mais curiosos e também, parece-me,
um dos mais significativos capítulos da
história natural dos seres humanos. Em
todos os lugares e em todos os tempos, homens
e mulheres procuraram, e encontraram devidamente,
os meios de tirar férias da realidade de
suas existências geralmente enfadonhas e
com freqüência extremamente desagradáveis.
Férias fora do tempo, fora do espaço,
na eternidade do sono ou do êxtase, no céu
ou no limbo da fantasia quimérica. "Qualquer
lugar, qualquer lugar fora do mundo."[1]
Tomei
emprestada a expressão narcisismo às
avessas de Nelson Rodrigues, que ao ser interpelado
por um crítico de suas obras, afirmava
que os personagens criados por ele eram surreais,
grotescos, anti-naturais, enfim, representava
uma visão tosca que possivelmente seria
fruto de uma mente doentia, que no caso seria
o autor. Nelson Rodrigues se defendeu com essa
expressão: "narcisismo às avessas",
refutando aquela afirmação simplista
e impregnada de sentimentalidades e eufemismos,
pois, o autor advoga ser aquela a realidade que,
gostemos ou não, precisava ser encarada.
Ora, o tema proposto revela uma questão
de vital relevância, seja epistemológica,
fenomenológica, existencial, enfim, o que
se propõe é uma introspecção
sistêmica, por assim dizer. Recentemente
fomos bombardeados com um filme visceral: "Tropa
de Elite", onde uma realidade é outorgada
por uma visão micro-social, sinagelástica,
digo isso, apesar de compartilhar e concordar
em uníssono com alguns aspectos retratados
nessa produção cinematográfica
brilhante, que demonstra inapelavelmente a necessidade
de um enfrentamento desses verdadeiros dissidentes
da civilização, principalmente em
se tratando da valorização desses
derradeiros homens que lutam contra a lógica
corruptível, esses que abraçam valores
que vão além do dinheiro, valores
esses em estado de obsolescência, a proficiência
desses homens é garantida por sua implacabilidade
em bem cumprir sua missão, entretanto,
proponho uma análise mais apurada sobre
o anverso desse avesso[2], por que como já
disse, o filme mostra uma realidade e não
"a realidade", pois, as realidades são
múltiplas, um bando de burgueses viciados,
policiais corruptos, tiroteios, carnificina, enfim,
tristes práticas que no mínimo colocam
em constrangimento nossa condição
de seres humanos e principalmente homo sapiens.
Num trecho do filme o capitão Nascimento
diz: "são vocês que financiam
tudo isso", ao se tratar dos viciados como
a força motriz do tráfico de drogas,
mas aí está nossa investigação,
será que deliberadamente, propositalmente,
essa pessoas que ingerem drogas, desejam que tudo
que eles conhecem termine? Será que eles
pretendem inequivocamente destruir o mundo em
vivem, por que estar na favela é uma condição
fugidia, pois a maior parte dos viciados não
residem nos morros, estão lá por
que só lá encontram aquilo que lhes
é negado de uma maneira ou de outra na
sociedade da ordem, são as leis que os
levam aos morros e são as leis que invariavelmente
fornecem os subsídios que os traficantes,
homens truculentos, bestializados, oportunistas,
esses capitalistas vorazes descobrem seu mercado,
ele não inventa a demanda, a demanda já
existe, eles não colocam propaganda na
tv, não há anúncio nas rádios,
pelo menos nas oficiais, não seria hora
de refletir sobre as raízes de todos esse
perverso conglomerado, onde os projéteis
esfacelam corpos, crendo minimizar o caos.
Entre
os narcóticos naturais, estimulantes e
alucinatórios, não existe um cujas
propriedades não sejam conhecidas desde
tempos imemoriais. Pesquisas modernas nos deram
um bom número de novos sintéticos,
mas no que se refere aos venenos naturais, simplesmente
desenvolveram-se métodos mais aperfeiçoados
de extração, concentração
e nova composição dos elementos
já existentes. Do ópio ao curare,
do cânhamo indiano à cocaína
da Andes e ao fungo siberiano, todas as plantas,
arbustos e fungos capazes de quando ingeridos
entorpecer, excitar ou provocar visões,
já tinham sido descobertos e utilizados
de forma sistemática. O fato é significativamente
estranho; pois parece provar que sempre e em todos
os lugares os seres humanos sentiram a precariedade
absoluta de suas existências pessoais, a
miséria de serem apenas o seu ser insulado.[...]
[...]do desejo de autotranscendência - o
bem era tudo contido na natureza por meio do que
a consciência individual pudesse ser transformada.
As mudanças provocadas pelas drogas podem
ser manifestamente para pior, podem causar mal-estar
no momento e vício no futuro, assim como
degeneração e morte prematura. Nada
disso importa. Só o que interessa é
a consciência, pelo menos por alguns momentos,
por uma ou duas horas que seja, de ser alguém,
ou na maioria dos, casos, outra coisa que não
o ser insulado.[3]
A
história mostra que nenhuma tropa, seja
ela de elite ou corrupta vai conseguir banir as
drogas e seu tráfico a partir de ações
isoladas e de força, não se luta
com os punhos com os espectros, armas irão
matar os hospedeiros, mas o vírus encontrará
outro. Assim questões como uso, tráfico
de drogas são conseqüências
e não causas. Não se mata uma árvore
pelo caule, a raiz fá-la viver, podendo
se tornar ainda mais forte. Não podemos
é claro, desmerecer o trabalho de homens
honestos, corajosos que combatem de maneira indelével
as mazelas de nosso mundo obtuso, que se predispõe
a deixar seus lares sem saber se voltam, apenas
porque acreditam que suas ações
irão contribuir para o bem estar da população
e de fato contribuem e seria no mínimo
irresponsável ou negligente dizer o contrário.
Mas, essas ações se não são
contraproducentes, são ao menos pueris,
pois, a questão está no espelho,
temos que passar a olhá-lo com mais atenção,
por que se proíbe sumariamente o uso de
substâncias cujos efeitos geram prazer aos
seus usuários?, tanto que eles enfrentam
todo tipo de risco para adquiri-la, ora de onde
vem essa demanda? Por que apesar de toda repressão
cultural e física os entorpecentes são
buscados como jóias?
Até
o presente, os governos pensaram sobre o problema
das substâncias químicas que transformam
a mente somente em termos de proibição
ou, um pouco mais realisticamente, de controle
e taxação. Nenhum deles, até
agora, estudou-o em sua relação
com o bem-estar individual e a estabilidade social.[4]
Por
que o Estado afasta esse contingente de seus tentáculos
e os aproxima dos traficantes?, esses últimos
para o nosso bem não possuem uma ideologia
capaz de amalgamá-los, de conferir-lhes
unidade, por isso os matamos com tanta facilidade,
por que são déspotas insipientes,
regidos pelos lucros, por um dinheiro que nem
sequer podem gastar, graças a essa deficiência
operacional e estratégica eles não
dominam efetivamente o Estado. Pensemos um pouco
no que diz Huxley:
Parece
eternamente improvável que a humanidade
de um modo geral, algum dia seja capaz de passar
sem paraísos artificiais. A maioria dos
homens e mulheres leva uma vida tão sofredora
em seus pontos baixos e tão monótona
em suas eminências, tão pobre e limitada,
que os desejos de fuga, os anseios para superar-se,
ainda por uns breves momentos, estão e
têm estado entre os principais apetites
da alma.[5] [...] O hábito de tirar férias
do mundo mais ou menos purgatorial, que nós
criamos para nós mesmos, é universal.
Moralistas podem denunciá-lo, mas, apesar
dos discursos desaprovadores e da legislação
repressiva, o hábito persiste, e as drogas
alteradoras da mente estão disponíveis
em toda a parte. A fórmula marxista "A
religião é o ópio do povo"
é reversível, e pode-se dizer, ainda
mais verdadeiramente, que "O ópio
é a religião do povo". [6]
Já não está na hora de tentar
algo novo, já não está mais
que consubstanciado o fracasso da política
pública no que concerne ao uso de drogas,
até quando estaremos olhando para o nosso
reflexo na água e atirando pedras, sem
procurar entender melhor o que se passa, é
de assustar que em pleno século XXI não
consigamos nos olhar francamente, despidos de
moralismos e falácias que amaldiçoam
nossa espécie, trata-se de um demônio
que não conseguimos exorcizar, leis absurdas,
inexeqüíveis, elas não irão
funcionar, por que o homem nunca foi mudado por
leis, as leis sim, é que são mudadas
pelos homens, elas são nossos construtos,
sua finalidade é orientar e garantir a
sustentabilidade do sistema, não inviabilizá-lo,
os usuários de drogas são nossos
filhos, irmãos, primos, quem não
conhece um usuário? ou ainda quem não
possui um na família e até dentro
de casa?, agora me diga, quantos desses são
animais nocivos, ameaças, pessoas inescrupulosas,
mau caráter, obviamente que alguns já
deformados por uso contínuo já passam
a apresentar anomalias, enfim, preferimos mandar
o BOPE subir o morro e exterminar ou ser exterminado,
expor policiais que também são pais
de famílias, com seus soldos residuais,
se apresentam como super-homens que apesar de
todo esforço e inegável destreza,
lutam uma guerra perdida.
Todas as drogas existentes são traiçoeiras
e maléficas. O paraíso aonde levam
suas vítimas logo se torna um inferno de
doença e degradação moral.
Elas matam, primeiramente,a alma, e depois, em
poucos anos, o corpo. Qual é o remédio?
"Re-pressão", respondem em coro
todos os governos contemporâneos. Mas os
resultados da repressão não são
animadores. Homens e mulheres sentem uma necessidade
tão premente de tirar férias da
realidade de vez em quando, que farão quase
qualquer coisa para encontrar os meios para a
fuga. A única justificativa para a repressão
seria o seu sucesso; mas isso não acontece
e, segundo a ordem natural das coisas, não
pode acontecer. O modo de impedir que as pessoas
bebam álcool demais, ou se tornem viciadas
em morfina ou cocaína, é dar-lhes
um sucedâneo eficiente porém saudável
para esses venenos deliciosos e (no atual mundo
imperfeito) necessários. O homem que inventar
tal substância será considerado um
dos maiores benfeitores dessa humanidade sofredora.[7]
A
questão aqui não se trata de advogar
a liberdade indiscriminada de uso de entorpecentes
ou ainda dizer que todos os usuários são
bonzinhos, mas, oferecer um raciocínio
audacioso, uma análise apartidária,
por que todos devem estar não do lado da
polícia ou dos dependentes químicos,
mas, do lado do ser humano, de uma melhor compreensão
de nossas necessidades, por que escrever leis
mecanicistas e legitimá-las pela força,
está patente que não produz resultados,
ou melhor, produz corpos, animosidades e caos.
Por
tudo isso, não há no Brasil quem
não conheça a malandragem, que não
é só um tipo de ação
concreta situada entre a lei e a plena desonestidade,
mas também, e sobretudo, é uma possibilidade
de proceder socialmente, um modo tipicamente brasileiro
de cumprir ordens absurdas, uma forma ou estilo
de conciliar ordens impossíveis de serem
cumpridas com situações específicas,
e - também - um modo ambíguo de
burlar as leis e as normas sociais mais gerais.[8]
Não
podemos também deixar de lembrar que a
favela que hoje serve de palco para ações
ilícitas dos narcotraficantes, é
em sua gênese o produto da exclusão,
da segregação social, espacial e
econômica impetrada historicamente no Brasil,
cortiços, quilombos ou favelas, independente
do caráter semântico que esses rótulos
possam adquirir, todos esses arranjos são
um habitat marginal, cujas franjas tangenciam
e confluem com as necessidades "extralegais"[9]
do cidadão da ordem. Que alheio as rigorosas
normas da etiqueta social, bem como do formalismo
e toda sorte de exigências inexoráveis
da sociedade global contemporânea, busca
um prazer, uma transcendência efêmera
que em todas as épocas é demonizada.
O quê fazer? Vamos executar todos os dependentes
químicos, traficantes, o que tem adiantado
prender os grandes cabeças dessas organizações
criminosas, seus enclaves garantem a continuidade
do sistema, são tentáculos regenerativos,
a cada queda um outro se levanta, trata-se de
uma rede alimentada por nossas hipocrisias, pela
intransigência em se tratar nossas anomalias
mentais, por assim dizer. Os traficantes e sua
horda lucram graças à falência
do Estado, esse anacrônico machista em seu
monólogo, que relega um debate mais corajoso
e inclusivo.
Obviamente, sabemos que os valores e instituições
supremas como dignidade, respeito, a família,
a escola, o altruísmo, nunca estarão
fora de moda e sua disseminação
é o melhor caminho ainda inventado pela
humanidade. Mas o que fazer com essa legião
de dependentes? Não será possível
encontrar novas práxis que alterem essa
repulsão por parte do Estado em relação
aos usuários, uma força centrífuga
que faz com que os jovens deixem seus lares, o
seio de suas famílias, gerando por conseguinte,
uma força centrípeta que os direciona
para os guetos e vielas, onde o mercado das drogas,
essas novas formas de indulgências, concedem
instantaneamente os paraísos artificiais
rarefeitos em um mundo cada vez mais banal e simbiônico,
ora sem um esforço para implementação
de mudanças no trato dessas questões,
e é verdade que os resultados de tais mudanças
são incertos, mas antes a esperança
da dúvida que a certeza do fracasso.
As cenas do filme são fortes para nós
professores, pesquisadores, pais de família,
pessoas comuns, esses policiais de elite são
só homens que querem voltar para casa,
essa carga não é só deles,
o embrutecimento e animalidade que permeia essa
produção nos choca, é um
narcisismo às avessas, produz o asco, a
repulsa em olhar nossa imagem lânguida,
deletéria, esse filme teve seu sucesso
garantido por que não é comum para
a humanidade o convívio com a verdade,
e a verdade é que se não nos apresarmos
em descobrir novas maneiras de coexistir nesse
mundo, a civilização que conhecemos
hoje, desaparecerá.
*Historiador,
pesquisador e estudioso da História dos
Marginais, autor de diversos artigos e ensaios
sobre exclusão social, transição
Império-república, escravismo-capitalismo,
alguns destes publicados pelo Centro de Ciências
de Ensino Superior à Distância do
Estado do Rio de Janeiro (CCIERJ).
Referências:
[1]
HUXLEY. Aldous. Moksha. Textos sobre Psicodélicos
e a Experiência Visionária 1931 -
1963 Tradução de Eliana Sabino.
P 10.
[2]
Termo cunhado pelo Professor Dr. Eduardo Marques
da Silva.
[3] HUXLEY. Aldous. Moksha. Textos sobre Psicodélicos
e a Experiência Visionária 1931 -
1963 Tradução de Eliana Sabino.
P 25.
[4]
Id. Ibidem. p. 80.
[5]
Id. Ibidem. p. 5.
[6]
Id. Ibidem. p. 79.
[7]
Id. Ibidem. p. 11.
[8]
DAMATTA, Roberto. O que faz o Brasil, Brasil?.
Rio de Janeiro: Rocco, 198. p. 103.
[9] SOTTO, Hernando de. O mistério do capital.
Rio de Janeiro: Ed. Record, 2003, passim.
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